
As Ordens da Ajuda, do Pedir e Receber, ao Dar e Tomar: Um Olhar Sistémico
A ajuda, como nos ensinou Bert Hellinger, é uma arte, é um ato poderoso; exige equilíbrio, humildade e respeito pelas dinâmicas sistémicas; pois tem consequências!
Ao longo das nossas vidas, enfrentamos desafios com o ato de pedir ou receber ajuda, muitas vezes condicionados pelas experiências familiares e pelos emaranhamentos do nosso sistema.
Este artigo explora como essas dinâmicas se relacionam com as ordens da ajuda.
O Pedir e o Receber: O Desafio de Equilibrar Forças
Crescemos em sistemas familiares que moldam a nossa visão de dar e receber. Em alguns casos, o ato de pedir é percebido como fraqueza, enquanto o dar é elevado como uma virtude suprema, já que nos coloca num patamar superior ao outro que recebeu.
Essa percepção pode levar-nos a rejeitar o ato de receber, como medida de proteção da vulnerabilidade que o ato de receber implica, assim como da dívida em que nos colocamos como consequência imediata. Ispo pode criar um desequilíbrio que afeta profundamente a nossa relação com o mundo e com os outros.
No meu próprio sistema familiar, por exemplo, havia uma forte valorização do dar sem esperar retorno. O ato de pedir era quase proibido, visto como algo que incomoda o outro sem necessidade, que humilha e diminuí. Essa dinâmica, embora sustentada por amor e boas intenções, gerou uma dificuldade em reconhecer o valor do receber, da vulnerabilidade, do fluxo da troca.
Ao refletir sobre isso, percebo que equilibrar o padrão de dar sem receber foi essencial não apenas para a minha jornada pessoal, mas também para a cura sistémica dos meus.
Ordens da Ajuda - um manual de boas maneiras e saúde-mental para qualquer ajudante!
Primeira Ordem: Dar o que se tem e aceitar apenas o que se necessita
A desordem ocorre quando alguém quer dar o que não tem e o outro quer tomar algo que não necessita, ou quando uma pessoa espera e exige de outra algo que ela não pode dar - porque não tem ou porque dando tiraria da outra a responsabilidade por algo que só ela pode ou deve carregar sozinha. Existem limites no dar e no tomar.
Segunda Ordem: Respeitar as circunstâncias externas e internas
Ignorar as circunstâncias do outro (internas e externas) e/ou das suas limitações (não, nem tudo é possível, os impossíveis existem, sim!) leva ao fracasso na ajuda.
Ajudar é submetermo-nos às circunstâncias e somente interferir e apoiar na medida do possível.
Terceira Ordem: O ajudante como adulto perante o adulto
No contexto terapêutico, esta ordem ensinou-me bastante sobre a importância de abandonar reivindicações infantis, o pensamento mágico, "o síndrome do salvador" e deixar que o outro tome a responsabilidade pela sua própria jornada.
É a capacidade do ajudante se colocar como adulto perante um adulto que procura a sua ajuda. Isto implica recusar tentativas, por parte do cliente, de forçar o ajudante a fazer o papel dos seus pais.
A desordem surge quando o ajudante não consegue fazer face às reivindicações de quem pede ajuda; e trata o cliente como uma criança para poupá-lo de algo, e das suas consequências, que são da responsabilidade do cliente e que devem ser carregados apenas por ele.
Quarta Ordem: A visão sistémica da ajuda
Esta ordem lembra-nos que ninguém está isolado — somos parte de um sistema maior.
Requer que o ajudante se foque no sistema como um todo mais do que no cliente enquanto indivíduo; não se envolvendo, assim, num relacionamento focado no cliente.
A desordem ocorre pelo desrespeito a outros membros da família, sobretudo aos excluídos do sistema.
Quinta Ordem: amar, de coração aberto, o ser humano como ele é
Permitindo que o cliente se torne parte do ajudante. Assim, aquilo que se reconciliou no seu coração também pode reconciliar-se no sistema do cliente.
A desordem desenvolve-se aquando do julgamento acerca dos outros. "Quem realmente ajuda não julga" (Bert Hellinger)
A sexta e última Ordem da Ajuda: Ajudar através do reconhecimento
Pois é desta forma que o ser humano ganha força.
Quando reconheço o cliente juntamente com todo o seu sistema familiar, encontro-me no meu devido lugar de ajudante. O cliente recebe essa força através de mim e pode usá-la para também ele concordar com o seu passado, com todos os membros do seu sistema, tal como foi e como é.
Pelo contrário, quando o ajudante gostava que algo tivesse sido diferente, ele precipita-se a consolar o outro; ou seja, ele lastima com o cliente o que foi e da maneira como foi – surge assim a desordem.
Estas ordens permitem uma ajuda humilde, discreta e com força, o que pode gerar em quem procura ajuda o crescimento e desenvolvimento que leva a que o cliente alcance o seu próprio destino, de acordo com o que lhe serve e se lhe adequa. Ao memso tempo o ajudante preserva a sua própria força; é a única maneira de conservar a sua saúde mental, pois não se esgota!
O Propósito Maior: Dar e Tomar como Equilíbrio
Quando olhamos para as consequências que vivenciamos pelo ato de não receber, podemos perceber que elas também trazem oportunidades. No meu caso, a dificuldade em receber foi a semente para desenvolver habilidades criativas, de resolução de problemas, autonomia, flexibilidade e uma profunda capacidade de ressignificação, compaixão e amor.
Tal como Hellinger nos ensina a respeitar os destinos e emaranhamentos, ao honrar o que faltou, podemos perceber que essas ausências servem a um propósito maior e são uma incubadora de competências extaordinárias.
Por outro lado, receber com gratidão não é apenas um ato pessoal, mas um movimento que ecoa em todo o sistema familiar. É permitir que o fluxo do dar e receber se equilibre, criando um espaço para que outros também possam viver esse equilíbrio.
A Ajuda como Caminho de Liberdade
A verdadeira liberdade está na forma como escolhemos lidar com as dinâmicas que herdamos. Ao respeitar as ordens da ajuda, tornamo-nos mais conscientes do papel que o dar e o tomar têm nas nossas vidas e nos nossos sistemas. Tudo é perfeito tal como é, e a nossa maior tarefa é acolher essa perfeição com amor, gratidão e propósito.
A reflexão que fica é: Como podemos ganhar novas perspectivas sobre as nossas dificuldades em receber? Vendo o receber como um ato de tanta grandeza quanto o de dar, na medida em que gera equilíbrio, amor, conexão sistémica, e dá impulso ao fluxo de troca dar-tomar, já que nos impele à compensação!
O concordar com esta dinâmica, com este ciclo em que num dia recebemos e no outro damos, com esta entrega que num dia exige vulnerabilidade e no outro grandiosidade, alianda à confiança de que, ao tomar o que nos foi dado, fortalecemos não apenas a nós mesmos, mas a todos ao nosso redor, é a chave para nos sentirmos igualmente na grandeza quando damos e quando recebemos!
